Arco-íris

Era verão. Era janeiro. Era calor. Aquela vibe meio esperança, meio férias, meio o ano pegando no tranco. Era sábado. Era nublado, finalmente. E era no Rio.

Nada chamava lá fora. Nenhuma mensagem no celular. Nada de bom na TV. Nenhuma peça passando, nenhuma festa, nenhum jantar, nenhum amigo. Nada era urgente. Nenhum compromisso. Nenhuma grande questão. Tudo o que havia podia esperar. Até segunda, se assim fosse. E assim era.

E então, após muito tempo, lembrei o que era existir, apenas. Assim, simples. Quase nada. Sem grandes emoções, surpresas, friozinho na barriga. Sem muitas histórias, interferências externas ou mega acontecimentos. Nada na cabeça ou no coração.

Olhei da janela: quadra da praia, vento na cara… E o que muitos chamariam de tédio me pareceu um grande conforto.

Quem diria…

Mar calmo nunca fez bom marinheiro – eu sei. Só que nem sempre… Às vezes, sim. Tipo esse dia, assim, agora, hoje, onde e quando a gente quiser.

Você é a cor mais quente ou A verdade da ficção depende de quem lê

Você falou entra no carro, gata. Eu falei que isso, tá louco, nem te conheço. Você falou por isso mesmo. E desde então eu nunca soube se por isso mesmo você queria me conhecer ou por isso mesmo eu deveria entrar naquele carro. Por tudo isso eu deveria, mesmo, ou faria, como me era de costume praxe educação modos etc e etc durante todos esses anos, era te dar um fora, rir sarcasticamente e falar só que não.

Só que não… Entrei naquele carro e sentei cruzando a perna sem ajeitar a saia que escorregava pela minha coxa. E foi assim o começo da minha história com você.

Daí por diante o que aconteceu naquele apartamento nas quase 24hrs sem ver a cor do dia foi mais que suficiente para ditar o tom do resto. O resto: eu completamente encantada. Encantada entregue louca maluca doida. Queria fazer tudo que você me pedisse. Tudo.

Manda: eu obedeço. Chupa cospe lambe engole bate vira morde volta pula faz vai sobe assim fica parada se mexe para continua se suja olha pra mim!

Tem mais whisky?, ih eh, esqueci, esqueci de comer, nada desde aquele salgadinho frio, pela metade, e se alguém, celular sem bateria, alguém pode me ligar, mas será que, que dia é hoje mesmo, então, é que assim. Cara, esqueci…

Eu tinha esquecido de tudo. Inclusive de mim. Mas quem se importa? Foda-se eu. Eu queria era saber de você.

Você. Eu sabia seu nome e era meio que só. Sabia seu nome, profissão e que tinha um fiesta prata 1.6. Nome, profissão, fiesta prata 1.6 e que estava louca por você.  Sim, louca. Não vá agora me dizer que isso tudo era normal…

Minha vida seguia. Não sem que, em pensamento, vira e mexe você invadisse meu café da manhã, meu banho, meu carro, meu trabalho, meu sono… Eu temia pela hora em que isso fosse acabar. Você enjoando de mim. Você arranjando outra. Ou outras… Um homem com tanto pau deve ter muita mulher, imagino. Se bem que você também me fez descobrir que eu… enfim, que seja, só queria ser sua.

Logo eu, que mal consegui chegar na metade de 50 tons de cinza de tanto que achei Anastasia uma submissa retardada. Mas você não era o Christian Grey. Tampouco me buscava em casa de camisa social pra jantar no restaurante mais caro da cidade. Você era um surfista tatuado que me mandava entrar no seu fiesta prata 1.6. Você tinha passado 3 meses sozinho na Indonésia. E isso era parte da pequeníssima lista de coisas que eu sabia sobre você.

Naqueles tantos e incontáveis encontros, poderíamos ter conversado mais, é claro. Sabe como é. Dado outro tom… Você me falaria seus gostos, pensamentos, histórias. Eu te abriria meus medos, planos pro futuro. Comeríamos japonês, veríamos netflix e riríamos juntos sobre coisas desimportantes. Mas, por uma combinação física, vibracional e anatômica de dois corpos que não conseguem se desgrudar quando se encontram, perdíamos todos os minutos perdidos em outras coisas.

Uma vibe meio rodriguiana, meio filme em cartaz no Estação, meio Último Tango em Paris. Ou só essa coisa por vezes incompreendida, esquisita e não decifrada das relações contemporâneas mesmo. Eu não sei… Afinal, saber mesmo só sabia nome, profissão, carro, tatuagens e Indonésia. E que a gente era bom pra caralho juntos.

Sim. Pensando assim, agora, não, eu não queria só isso. Queria que naqueles tantos encontros tivéssemos conversado mais, é claro. Dado outro tom… Sabe como é. Que você tivesse me falado seus gostos, pensamentos, histórias. Que eu te abrisse meus medos, planos pro futuro. Que comêssemos japonês, assistíssemos netflix e ríssemos juntos de coisas desimportantes.

Mas, por uma combinação física, vibracional e anatômica de dois corpos que não conseguem se desgrudar quando se encontram, por esses casos que acontecem uma vez na vida, por essas coisas que a gente não consegue explicar, com você eu topava tudo exatamente do jeito que era. Gostava. Muito. E queria mais era perder todos os minutos perdida com você.

Penso em você, mister mysterious. Mais do que gostaria, menos do que você imagina. Vê se passa aqui dia desses. Saudade de entrar no seu fiesta prata 1.6, gato.

Dezembro

Dezembro é sempre assim: chega chegando. No começo, por tanto tudo, muitas vezes assusta… E são comuns reações do tipo que isso, como assim, já?
Sim, ué. Já. Dezembro simplesmente chega. E vai logo mostrando a que veio. Imprimindo sua tabela de cores nas paisagens, mudando a energia, deixando as pessoas mais bronzeadas, mais falantes, mais bonitas. Dezembro tem pulsação própria. E até o ar ele consegue mudar. Sai por aí espalhando um cheiro que é só dele. Vocês também sentem?

Por incrível que pareça, tem gente que não gosta. Mas dezembro é ele mesmo e não está nem aí. É que dezembro não se importa com o que não importa. Ele tem mais o que fazer… Tem muito, inclusive. Todo dezembro é urgente.

Mas dezembro não tem pressa, tem disposição. É diferente, percebe? É que ele é entusiasmo puro e não tem tempo a perder. Dezembro é sem mimimi. Ele sabe o que é bom. E gosta.

Dezembro não se acha, tem certeza. E está pra nascer mês mais concorrido.
Dezembro é festa dia sim, dia sim. É encontro, conversa, pouca roupa, suor, sol e água salgada. Dezembro é férias. Mês de lançar moda. É retrô e é moderno. Dezembro é tudo junto e misturado aqui e agora mesmo. É contagiante, leve, solto, pra frentex. Pura esperança, entendimento e aceitação. É bagunça, viagem, gente pra todos os lados, toque, contato, cidade lotada, paz, amor e aeroporto.

Dezembro é de pirar qualquer um. E poucos meses curam tanto quanto ele… Dezembro é fé e dezembro é foda-se. É nao deu e ainda vai dar. É conexão cósmica, sintonia, flor pra Iemanjá, reza forte, choro, branco, madrugada quente, disponibilidade, wish list, fogos de artifício, pisca-pisca, reflexão, chinelo, cabelo na cara e riso solto. Dezembro é atitude, ousadia, chopp, prosecco, água de coco e picolé. É energia pura e com certeza o mês mais sexy. Dezembro transborda sensualidade… E amor.

Dezembro é natal, réveillon, luz pra tudo quanto é lado, horário de verão, temporada de festas, vibe boa e meu aniversário.

Nao poderia ter nascido em outra época… Seja muito bem-vindo, melhor mês!
Sou toda sua.

*Dezembro fez tão jus a isso tudo, que esse texto só veio parar no blog agora.. Ops =)

Fróidi

O começo de tudo, ela dizia, seria a tal da ausência simbólica do pai. Daí o vício por barba arranhando o pescoço, mão na cintura e conchinha. A facilidade em se sentir completa ao perder-se em conversas na madrugada e abraços de domingo. E a ânsia quase infantil de cuidar, ser cuidada, revelar muito de si des-cri-te-ri-o-sa-men-te e, em troca, descobrir do outro.

A correlação entre uma coisa e outra é assim confusa mesmo. Bom para treinar o não questionamento e estimular a aceitação simples e fácil, olha que legal! Simples e fácil simples e fácil simples e fácil – novo mantra. Fácil e simples, descoberta do ano: a vida pode ser leve e é bem melhor que seja. Ah, sim, quanto ao questionar-se, já se viu, é dom e sabotagem. Que se crie um jeito para diferenciar um do outro.

Engraçado é no meio disso tudo coexistir certo apreço pela solidão. Temos aqui uma curiosa carência independente… Curiosa, carente e independente. Há.

Tá, whatever.

O choro fácil, que fique claro, é sensibilidade sim, claro. Mas também fuga, viu. Han? É que, olha que coisa: tratra-se justamente da forma encontrada para evitar a conexão de fato. Raiva? Chora. Tristeza? Chora. Saudade? Chora. Chatice, né! Pois experimente outras maneiras de expressar os sentimentos aflitivos – ela falou. Vai que no lugar do choro esconde-se um soco e mal se sabe. Vai que, né.

E daí foi-se uma sucessão de bilhetes de embarque, livros inacabados, emails não enviados, camisetas cortadas, mensagens de madrugada, drinks mulherzinha, marlboros light, inspiração, expiração, invenção, meditação, musculação, canção, oração, perdão, patinação, chão e toda sorte de ãos revezando-se em esforço coletivo na tentativa de dar conta dos momentos de con(fusão) que, quase sempre, ainda, acabavam terminando em sorriso (sim) e lágrimas – agora, na medida do possível, evitadas.

Ah, sim, não poderíamos deixar de mencionar a questão da perda. Digo, da dificuldade de lidar com. Mais uma vez, é claro, consequência da tal ausência simbólica que, percebe-se, por aqui é diagnóstico semelhante à virose. Se bem que, pensando melhor, trataria-se nesse caso de uma ausência real. Ausência real de tudo que já se perdeu e queria que tivesse ficado. Pois bem, não muda muito, vamos lá: seria bonito o desejo de ter para si todas as coisas dessa vida, não fosse condição inexorável da existência o fato de que, ao escolher  X, automaticamente desescolhe-se Y. Simplesmente porque X é X e Y é Y. E XY nem sempre é uma combinação possível dentro do campo de possibilidades desse mundo. De modo que, né. Ficamos entendidos. Perda e ganho perda e ganho perda e ganho. Mantra número 2.

Semelhante equação pode ser aplicada à, vamos adjetivar assim, impetuosa curiosidade de experimentar tudo que te interessa nesse mundo. Ambição que, apesar de soar cool e modernex, esbarra no fato de que ele tem aproximadamente 510,3 milhões k e você pouco mais de 1,60. O que, convenhamos, faz uma diferença.

Bem, por enquanto é isso.

Em todo caso, podemos estar trabalhando com 6 gotas de floral 4 vezes ao dia, yoga, velas aromáticas, galhinhos de arruda, nota de 1 dólar na carteira, pensamento positivo, chopp, hot philadélphia, música ao vivo, sábados, ar fresco, sexo sem camisinha, roadtrips, água salgada, netflix, chocolate, paixão correspondida, Bauman, vinhozinho e, se nada funcionar, o soberano guru organizador do caos e falta de certeza das sociedades líquidas: tempo.

Ambrosia

Sempre achei interessante a forma como os animais devoram as coisas. Minha cachorrinha, por exemplo, era apaixonada por balas de hortelã. Bastava colocar na bolsa para ela descobrir. Daí eram pulinhos, latidos, arranhões, charme e mais charme até que eu cedesse e desse pelo menos 1 das 12 balas do pacotinho. Muitas vezes tentei fazer com que comesse a ração primeiro e ganhasse a bala de brinde. Nunca consegui. Tinhosa, era capaz de insistir por séculos. A bala tão desejada, no entanto, não durava nem meio segundo na boca dela. E mal terminava, lá vinha mais meio milênio de dengo até receber outra. Dollynha, aprecia o sabor. Voce gosta tanto. De que adianta comer assim tao rápido? (sim, converso com cachorros e eles bem que entendem)

Já comigo, sempre foi o contrário. Sobremesa, aprendi, só depois da comida. (afinal, para adultos, doce não é comida) As balas nunca eram ingeridas de uma vez só. Por segurança, deixava no mínimo umas 2. Afinal, vai que do nada surge, assim, um desejo súbito de balas e não as tenho? Imagina… Melhor precaver. E o último pedaço, por sua vez, era reservado para a coisa mais gostosa. Mentos rosa, doce de leite, cereja… Começo era coisa de chantilly e glacê.

Recentemente, no entanto, algo aconteceu. Fui almoçar com um amigo e, após horas sem comer, devoramos nosso prato em velocidade recorde. Nossa, parecíamos uns ogros – falei, mal deu para apreciar. Eis que então ele me responde: Que nada, como assim sempre. Inclusive, essa é justamente minha forma de saborear. É desse jeito que mato minha fome, comendo o mais rápido que der. Não vejo sentido em ir de pouquinho em pouquinho se o desejo é gigante, o prato farto e minha boca aguenta mais

Bobeiras à parte, sei que depois desse dia algo em mim mudou. Nunca mais encontrei restos de balas escondidas pela casa. Nenhuma mentos rosa estragada no fundo da gaveta. Nenhuma bala garoto fora da validade. Na verdade, não tenho encontrado restos de nada. Nada mais tem sido desperdiçado. Está tudo devidamente devorado, ingerido, digerido e apreciado. E, a propósito, nunca mais deixei o melhor pro final. Tenho começado pelo doce de leite, e mal me sobra fome para o chantilly.

Sorte

Quando decidir viajar sozinha, de lugar em lugar, sabia que muitas vezes me sentiria… sozinha. Afinal, né, essa era minha condição. Até aí tudo bem, era assim que eu queria, foi assim que eu quis.

Mas sabia, também – ou pelo menos esperava – que encontraria pessoas pelo caminho. O que eu não sabia é que seriam tantas. O que eu não fazia ideia é de que seriam todas tão legais!

E assim foi sendo. Em cada lugarzinho que eu ia, quando menos esperava, surgia alguém. Fosse para me dar uma dicazinha secreta, convidar para uma volta, apresentar conhecidos, contar uma das mil historias que ouvi, ajudar com a mala, dividir um vinho ou filosofar sobre a vida. Em cada canto tinha alguém, ou alguéms, para me deixar mais feliz, oferecer comida, sair por aí, dar colo e carinho, rir de coisa boba, de coisa séria, se perder junto comigo, trocar segredos, apresentar o novo, e me fazer acreditar na gentileza de estranhos.

E assim fui conquistando amigos de uma vida, uma semana, um dia, uma conversa, uma corrida de táxi, uma lembrança e até de um sorriso. Todos muito especiais e igualmente importantes.

É mesmo incrível que isso tenha acontecido. Raras vezes conheci tanta gente legal por metro quadrado. Me pergunto porque não é assim na minha própria cidade. Não sei se foi coincidência, acaso, sorte, ou até mesmo se quem estava diferente era eu. O fato é que poucas vezes na vida me senti tão bem acompanhada – fosse por cada uma dessas pessoas, fosse por mim mesma.

E eu, que saí do Brasil de saco cheio até de mim, volto me recusando a achar que não existe gente interessante nesse mundo.

A cada um de vocês que cruzaram meu caminho, meu muito obrigada. A viagem não teria sido tao incrível sem cada um desses encontros. E a você, Deus, o meu maior obrigado, minha eterna gratidão. Dessa vez caprichou mesmo. Quase que meu coração não aguenta.

In(sight)

Tenho sentido uma alegria tão forte com as pequenas coisas que vira e mexe me pergunto se a insatisfação do mundo de repente não passa de um erro semântico: elas que haveriam de ser consideradas grandes.

Quarta-feira de cinzas

Nosso problema era a sutileza. Não que fôssemos médios, mornos, beges ou sem graça. Certamente que não! Acontece que o excesso de dualidade e nuance e verticalidade e tonalidades e, sei lá!, todas essas palavras que por mais que tentem não explicam a coisa em si, impediam que víssemos com clareza o que não queríamos ver mas víamos: o fim.

Não me refiro a um fim the end.  Um fim final, tipo o adeus que a gente dá para os personagens de um filme depois que ele acaba. Mas um fim do que a gente tinha, da forma como a gente tinha. Um fim das coisas como elas eram.

Tá. Bem sei que nada do que hoje é pode continuar sendo o que já foi, e que tudo o que é deixa de ser justamente conforme vai sendo. Ainda assim, existe uma diferença entre continuar sendo mesmo que mudado, e entre se transformar numa coisa outra. Coisa outra que, não é que era ruim – muito pelo contrário-, mas que talvez não fosse o que a gente queria. Tal-vez. Esse era o problema.

Ai ai.

Às vezes eu queria era que você me decepcionasse. Me traísse, me olhasse com indiferença, contasse mentiras descaradas, derramasse whisky na minha perna, puxasse meu cabelo e rasgasse meu vestido.

Em troca eu te xingaria, fumaria mil cigarros, daria um tapa na sua cara, choraria aos seus pés, borraria a maquiagem e juraria nunca mais te encontrar.

Nos odiando, seguiríamos cada um pra um lado. E aí, quem sabe, caberia um fim the end.

Mas não. Éramos sensatos demais, inteligentes demais, refinados demais. Cordiais e sensíveis, respeitávamos um ao outro. Respeitávamos a nós mesmos. Você me olhava daquele jeito, me dava seu colo, seu silêncio e seu carinho. Sentados no sofá da sala, o telecine no mute e a cerveja já meio quente, juntos e em silêncio, conversávamos com a nossa dor. Sem whisky, sem tapa na cara, sem grito. Só eu, você e a nossa solidão. Eu, você e a nossa história. Eu, você, e nosso pequeno mundo que, teimoso, insistia em pedir pra ficar. Sóbrios, conscientes e inconsoláveis. O Almodóvar acontecia aqui dentro.

No lugar do the end e dos créditos indicando os mil e um personagens que cada um havia interpretado, tinha a vida que, sem representação nenhuma, nos observava e dizia: “it´s up to you, meninos.”

Ela não forçava. Deixava que tomássemos o nosso tempo – mesmo que não fizéssemos a menor ideia de quanto tempo fosse. Esperava paciente, como se soubesse melhor do que a gente como é difícil dizer tchau quando não existe o ódio para amortecer o amor. Porque sim, não tinha ódio nenhum. E, sim, tinha o amor. Muito. Sempre vai ter.

Receio que poderíamos ter ficado a vida inteira ali. Entre risadas, pizzas, tédio, conversas sempre gostosas e beijos com gosto de boca, café e colgate. Ali, meio felizes, meio sei lá. Ali, sem saber. Ali, como milhões.

Mas não. Éramos sensatos demais, inteligentes demais, refinados demais. Cordiais e sensíveis, respeitávamos um ao outro. Respeitávamos a nós mesmos. Nosso problema era a sutileza.

Talvez.

Feliz mundo novo!

Então é isso, né. Ficamos por aqui. Tchau, 2012. Obrigada por tudo que a gente viveu. De verdade.

Obrigada pelos momentos de glória, felicidade e imensa satisfação e alegria que, bem, você sabe.

Obrigada pela percepção aguçada, pela sensibilidade à flor da pele e pelo choro fácil.

Pela espiritualidade revigorante, pelos inúmeros insights, pelas tantas coisas novas e tantas coisas velhas.

Pelos maravilhosos encontros. Pelas oportunidades. Pela descoberta de sentimentos e vivências e emoções. Por todos os pequenos e grandes prazeres e pelas surpresinhas que você fazia.

Obrigada pela melancolia que se fez necessária, por todas as nossas conversas, pelos foras que você me dava, por todos os tapas na cara e, principalmente, por ter colocado um espelho de 360° na minha frente, levantado meus cabelos e acendido a luz. Foi bom. Difíííííícil. Mas bom. Importante. Gostei muito. Juro jurinho!

2012, obrigada por tudo que me ensinou. Você foi danado. Perspicaz, inteligente, duro, árido, verdadeiro. Meio sacaninha. De uma ironia fina, interessante. Vou te falar que hoje até consigo entender suas pretensões, sabia? Logo agora que você já está acabando, né. Pois é. Mas isso também estava nos seus planos. Bem sei.

Gostei de você. Fica bem, tá? Sempre vou te lembrar. Com carinho e gratidão por ter me feito chegar até aqui. Até mim.

Feliz fim pra você. Ou começo. Ou recomeço. Ou qualquer coisa que se queira.

Enfim.

Monocoisices dessa monovida

Eu e uma sala de espera gelada: tédio.

Eu, uma sala de espera gelada e um médico mais de uma hora atrasado: muito tédio.

Eu, uma sala de espera gelada, um médico mais de uma hora atrasado e 3 mulheres de perfume forte loucas para puxar assunto chato: tá bom, a gente já entendeu.

Após passar 60 minutos falando “aham”, “é isso aí” e “pois é”, vi que o jeito seria fugir para uma das poucas revistas empilhadas sobre a bandeja dourada velha – típica de consultório de médico que atrasa mais de 1 hora com pacientes de perfume forte.

Enfim.

As revistas eram todas antigas. E todas de fofoca. Exceto uma. Embaixo da bandeja, – e mais empoeirada que ela – excluída e renegada pelas mulheres de assunto chato, havia uma revistinha com dicas de vestibular. Por não estar a fim de me sentir pobre e sem roupa, e confirmando meu apreço pelos deslocados nesse mundo, deixei as Caras de lado e peguei a revista.

Folheei fingindo atenção, e entre matérias sobre todas aquelas coisas que a gente se esquece até que alguém nos lembre, havia um quadradinho pequeno falando sobre monoculturas.
Dizia: “o cultivo prolongado de uma mesma cultura pode ser muito danoso ao solo. Pouco a pouco, ele vai enjoando de receber os mesmos nutrientes, até perder todas suas propriedades e ficar infértil.”

Não sei se o quadradinho se dirigia a crianças ou a alunos de séries mais baixas, o fato é que estava escrito assim mesmo – “o solo enjoa”. Achei tão bonitinho. Comecei a imaginar a terra enjoando. No começo ela curte. Mas aí vai percebendo que nada muda. Sempre os mesmo nutrientes, as mesmas trocas de vitaminas, os mesmos sais minerais. É então que, pobrezinha, vai se entediando, ansiando por novidade. E o agricultor insistindo em chuchus em chuchus em chuchus. E ela desesperada. E ele chuchus. E ela implorando. E ele chuchus. Até que um dia, já sem forças e completamente desmotivada, desiste de tudo e morre. Pra sempre. Morre pra sempre.

Que mundo injusto!, penso eu. Planta-se a mesma coisa e o que morre não é a coisa, é a terra. Triste fim.

Foi então que olhei para aquela sala e de repente percebi: meu tédio não era por conta das esperas fortes, mulheres geladas ou atrasos perfumados…

Merda.
Fechei a revista e peguei uma Caras bem grande com a Grazi na capa.

Triste fim.